quarta-feira, 11 de julho de 2012

A gente da praça

A gente da praça com seus olhos úmidos e desavisados
Grita ardentemente perdão pelos erros que não cometeu
Tão profundamente sãos e insanos, de mãos nervosas e pele sem luz.

A voz rouca, ofegante, sem pressa, acostumada ao ouvido do vento
Nada está a sua espera, túnel, vazio, firmamento...
E na praça, mais do que todos os passantes, sente os caprichos do tempo,

A chegada de uma primavera que dura menos, bem menos do que as noites de frio,
E o susto das tempestades.

Em trapos, se aquece como prisioneiro de um cárcere sem muros
Pelos cantos de uma parede de mármore, pelos vãos de uma loja de luxo,
Pelas quinas de um bistrot sofisticado, cheirando a comida que só pode saborear
Em restos, réstias de quem não sabe que é humano...

A gente da praça não morre de fome, não morre de frio, não morre doente.
A gente da praça morre de esquecimento...

sábado, 3 de março de 2012

Santuário.



                                                          04/01/2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ternura.

Fonte: http://marinaaniramart.blogspot.com
Ainda não consegui parar de pensar em você, ternura. Bem que eu gostaria de te acolher nos meus braços, te fazer dormir. Dizer que está tudo bem. Ter todo o tempo do mundo para ouvir suas histórias. Quantas canções de amor escondidas?? Quantos suspiros solitários?? Quantas dores em teu peito?? Te amo como a um irmão, como alguém a quem se deseja proteger. Continuo achando seu sorriso a graça de qualquer dia. O verão em pleno inverno. A bebida quente de qualquer coração..

                                  

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pensamentos a granel.

Quando leio um livro estou em busca de algumas pequenas verdades, filosofias descompromissadas, observações do cotidiano, mistérios singelamente desvendados, coisas banais e grandiosas. Tenho para mim que todo escritor guarda um alterego de filósofo, mas nem todo filósofo possui a criatividade e o deslumbramento que cada escritor esbanja diante da exaustiva tarefa da narrativa. A verdade nua e crua, que às vezes pode ser calculada como um sintoma de esquizofrenia da mente de alguns pensadores, não afeta com a mesma agudez o esforço de reflexão constantemente presente na maioria dos bons livros de literatura.

Cito aqui Albert Camus (1913-1960) e Nélida Piñon (1937-), que vivendo cada um em seu tempo, convivendo com gerações distintas, em sociedades díspares, com experiências de vida singulares e resguardando cada qual sua própria característica literária, ainda assim apresentam pontos de vistas particularmente semelhantes, eu diria mesmo coincidentes, acerca da natureza do poder, da essência e da explicação quase orgânica para esse ímpeto tão primitivo no ser humano. É preciso, antes, se perguntar: por que essa questão continua sendo tão atual? Os trechos a seguir falam por si sós:

"Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido. Todo homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar corresponde a respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais desfavorecidos conseguem respirar. O último da escala social ainda têm o cônjuge ou o filho. Quando é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que alguém tenha o direito de responder. 'Não se responde ao pai', conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo, senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão a toda razão pode opor-se uma outra: nunca mais se acabaria. A força, pelo contrário, resolve tudo". (p.35)



"- Ninguém quer perder a sua cota de poder, ainda que reduzida. É uma fatalidade humana mandar, dar ordens. Ainda que eu me furte, sem querer mando em Eulália, Eulália manda nos filhos, os filhos mandam entre si, e por sua vez eles submetem-se ao meu comando. Nesta cadeia ininterrupta assegura-se ao outro a ilusão de mandar, embora esteja sujeito a obedecer. E, por meio deste estratagema, continua-se a comandar. Mesmo eu, de porte modesto, sou obrigado a mandar em algumas pessoas. E estas mesmas pessoas, por seu turno, não se privam de mandar em tantas mais. Quer no ambiente de trabalho, como em casa. Como se quebrará esta sucessão de autoritarismo?" (p.157)


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sofisticated.




Alabama Shakes

     Para aqueles que pensavam que ouvir música boa era só ouvir música dos anos 1960 e 1970.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Desmundo - Ana Miranda



"Que este era o meu tesouro, poder alembrar e poder esquecer"

                      "E que seja assim até o derradeiro bocejo do mundo"

Bolívar




"Estamos ricos"

                "Estamos livres"

                                     "Estamos tristes"

                                                                 







domingo, 29 de janeiro de 2012

Recordações de Maria Helena.

Maria Helena envelheceu. Ela vivia há cerca de 23 anos numa rua antiga, ainda hoje igualzinha, nas proximidades da magnífica "Pedra dos dois olhos", no histórico bairro chamado de Jucutuquara. Disso eu me lembro bem. São antigas também as duas fotografias que carrego comigo. Eu sei que o tom amarelado dessas revelações denunciam a passagem dos anos, também evidenciadas na decadência das casas, nos sulcos da pele, no embranquecimento dos cabelos, na postura arquejada e em toda juventude ocultada pelo peso de todas as idades. Falo da minha juventude e da juventude dos ex-vizinhos de Maria Helena. E falo mais: as coisas, as pessoas, tudo envelhece, de acordo com os planos divinos, imagino, em honra e dignidade ao passado. Por mim, tudo bem.

Eu queria mesmo era reconstituir uma amizade antiga em homenagem a alguns momentos do passado. Eu queria era reentrelaçar dois destinos. Providenciar que não se perdessem mais. Pois, diferente do que se costuma pensar, não são as distâncias que amornam relacionamentos, são os dias que se sucedem distraídos, em eterno adiamento, na esperança de que viveremos para sempre ou que teremos tempo, um dia, para sermos atenciosos, para esquecermos de ligar para o gás, para a companhia de energia, para a central de reclamações, para a farmácia 24 horas, para então nos concentrarmos nas pessoas, nas saudades, enfim, na agenda de telefone guardada em alguma gaveta da nossa mobília. É engraçado dizer isso em plena era da impessoalidade, dos perfis virtuais, dos e-mails, dos sites de relacionamentos. Assumo que estou de saco cheio de toda essa parafernália. Eu não preciso de GPS, se me perder eu pergunto o caminho oras. Por que não?

Eu fui em busca de Maria Helena utilizando de todos os recursos, diria, ultrapassados, superados, em desuso. Bati de porta em porta. Conversei com antigos. Andei de um lugar a outro, seguindo os rastros de Maria Helena. Ia simplesmente guiada pela confiança de que a encontraria. Ainda que a cidade não fosse mais a mesma. Ainda que duas décadas de intensa urbanização embaralhassem minhas lembranças e me tirassem o sentido de rumo. Não me intimidei com as mudanças, nem com a possibilidade de Maria Helena ter deixado de existir, nem tampouco com as grandes chances de minha amiga ter ido morar em outra cidade, quiça em outro Estado. Não me era indiferente a probabilidade de Maria Helena ter me esquecido. Talvez não desejasse mais me ver. Não dá para perguntar a alguém que não se vê há anos e de quem não se sabe o paradeiro, se ela quer nos rever. Não dá para agendar uma visita sem antes confrontar a pessoa com sua presença, totalmente longínqua desde 23 anos atrás e de repente tão imediata, a poucos centímetros de distância. É um risco, é uma aposta. Eu estava sujeita tanto a alegria quanto a decepção do reencontro.

É angustiante procurar uma lembrança, sabia? Reforçada apenas pela imagem de um retrato. Talvez não nos reconheçamos numa primeira mirada, é normal. No entanto, suponho que mesmo de idade avançada continue bela. Receio que se encontre machucada pela vida, apesar do espelho possivelmente não lhe negar o conforto da aparência. Eu ensaiei muitos diálogos. Conversei horas a fio com Maria Helena. Tinha a expectativa de que ela voltasse a me confiar os seus segredos. Acho que estava querendo demais. Um café, uma conversa de recordações, um breve passeio e nossos laços estariam novamente reatados. Não duvido, dependendo das circunstâncias, que se oferecesse a me levar de volta até meu atual endereço, longe, muito longe, só para conhecer a vida que levo, só para garantir que virá até mim caso eu não a procure novamente. Faz parte da sua natureza querer garantias. Lembro-me de um episódio engraçadíssimo, quando foi surpreendida por um assaltante, que ficou ainda mais estarrecido do que ela quando ouviu sua vítima gritar a plenos pulmões, irritadíssima, que lhe daria tudo que tinha desde que prometesse, garantisse que nunca mais a roubaria de novo.

Ela queria se afiançar de tudo. Tanto que da última vez que nos vimos, que nos despedimos, ela me fez jurar que trocaríamos correspondências até o dia em que não precisássemos mais dos serviços dos Correios, porque poderíamos falar pessoalmente. Não preciso nem dizer que meu juramento ficou no Espírito Santo, na verdade sequer saiu da rodoviária. A ciranda em que a vida me envolveu me fez quebrar a promessa. Nunca mais falei com Maria Helena. Não escrevi carta nenhuma. Depois de me lembrar disso, acho que seria de bom tom começar me desculpando pela ausência, pelo silêncio, pelo descumprimento de uma declaração tão séria. Fiquei distraída. Meu telefone não parava de tocar, meu filho não parava de adoecer, minha carreira não podia esperar. Ela entenderia? Não sei, ainda não encontrei Maria Helena. Soube que se casou novamente, que realmente continua bonita, que sorri com frequência porque seu ex-marido parou de a importunar. Soube que ainda mora em Vitória, que sua filha casou com um engenheiro e que sobe o Convento da Penha uma vez por ano. Deixei um bilhete com uma antiga vizinha, dona Eli, exímia costureira, para que se a visse pelas redondezas a entregasse em meu nome e a garantisse que estive ali, que a procurei e que ainda sinto saudade.