"Um trem deve ir devagar
para que as borboletas possam
entrar e sair pelas janelas."
Porque tudo é feito de amor
"Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido. Todo homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar corresponde a respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais desfavorecidos conseguem respirar. O último da escala social ainda têm o cônjuge ou o filho. Quando é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que alguém tenha o direito de responder. 'Não se responde ao pai', conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo, senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão a toda razão pode opor-se uma outra: nunca mais se acabaria. A força, pelo contrário, resolve tudo". (p.35)
"- Ninguém quer perder a sua cota de poder, ainda que reduzida. É uma fatalidade humana mandar, dar ordens. Ainda que eu me furte, sem querer mando em Eulália, Eulália manda nos filhos, os filhos mandam entre si, e por sua vez eles submetem-se ao meu comando. Nesta cadeia ininterrupta assegura-se ao outro a ilusão de mandar, embora esteja sujeito a obedecer. E, por meio deste estratagema, continua-se a comandar. Mesmo eu, de porte modesto, sou obrigado a mandar em algumas pessoas. E estas mesmas pessoas, por seu turno, não se privam de mandar em tantas mais. Quer no ambiente de trabalho, como em casa. Como se quebrará esta sucessão de autoritarismo?" (p.157)