quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Prelúdio.


      Uma cidade sem história contada é pergaminho perdido no tempo. Caminho indecifrável. É como nascer, ser batizado e nunca mais ouvir o seu nome. É como nascer e alguém esquecer de te narrar. Pensam que nascer é já prodígio suficientemente grande e se distraem da tarefa de existir. Existir é narrar. É ser narrado. 

        É preciso ressuscitar os personagens e as esquinas da cidade. Suas infâncias, seus mitos, suas bem-aventuranças, suas tragédias. Uma ressurreição literária. Ato voluntário da criação.

       Eu diria: ressuscitar como alguém ausente que chega de volta à casa e retira o pó da superfície dos móveis. A cena lhe comove, porque ao contrário do que supunha, pelo silêncio e pelo abandono, encontra vida por debaixo da poeira grossa. Mesmo que seja passada... Pelo voo livre essa vida se torna agora, se ajusta, se recompõe diante de uma necessidade muito humana e genuína de se sonhar e de se querer eterno.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Anoiteceu...

http://marinaaniramart.blogspot.com.br

E a vida aqui, longe de você, ganha
contornos de infinito.

Como uma sucessão incorruptível de
dias e noites.

Por trás da vidraça embaçada,
aparentemente aquecida do frio,            
vivo tormentos de insônia
em doses triplas de sonambulismo.

Paralisada, tal como uma lembrança.

Fragmentada, tal como não queria.

Alguém de algum lugar espia.
Mãos apoiadas ao queixo

Gira as horas como um brinquedo,
                     ora iluminando, ora enegrecendo.
                       
                          A paisagem, não fosse à força de
                                              expressão, pareceria quase etérea,
                                                                                       Quase estéril,
                                                                                                  Quase intacta.

domingo, 19 de maio de 2013

Reflexões de um formigueiro.




http://bailaolopes.wordpress.com/ilustracao/ilustracoes
-soltas/44-a-formiga-rabiga/
Peregrinação das Formigas

... que de curto caminho,
para nós humanos,
percorrem meio mundo,
teimosas operárias do tempo,
para concretizar pura e muito
simplesmente
a obrigação de existir,
Coletiva-mente...

             *

O que esperar de uma formiga
desgarrada, perdida
há milênios de distância
de sua tropa retilínea?
Minúscula na sua errância
Eterna ou Inteira na sua
corajosa rebelião individual,
de fundar sua própria
nação-formigueiro?

sábado, 27 de abril de 2013

Kosi Ewe Kosi Orisá


Quando eu morrer quero virar uma planta!

Num emaranhado de cordões verdes.

Envolvida no cheiro alacre de outras plantas.

Na minha própria textura de vegetal.

Viva da raiz ao caule. 
Nos dias primaveris abrir flores.

Sementes de mais uma estação.

Disponível para o tempo.



terça-feira, 19 de março de 2013

Ave Maria.

O sino da igreja tocou no exato minuto em que o dia completou suas 18 horas. Lembro-me de estar, nesse mesmo instante, acolhida do frio das tardes de maio na casa de minha avó. As cigarras completavam o anúncio dos sinos e pareciam orientadas e acostumadas a iniciar o bater de suas asas logo que o ritual religioso se completasse, assumindo como sua a tarefa de continuar os prenúncios da noite que avançava. Eu acompanhava muito muda e atenta os barulhos que, para a maioria, passava imperceptível, por força do hábito.

Era quase sagrado. Chegava novamente a hora de apoiar-se no encosto da varanda para observar e comentar a vida dos passantes ou só para respirar um pouco de ar fresco. De vez em quando o latido de um cachorro assustado predizia um possível atropelamento. Na esquina da rua principal da cidade era comum o trânsito de caminhões e carros que só estavam ali de passagem, levando rostos desconhecidos e todo tipo de gente que dos moradores daquele lugar nada sabiam, ignorando sem pudor também o nome de batismo daquele caminho, margeado de casas simples, descoloridas. Talvez a preocupação de minha avó em sempre retingir a sua casa venha daí, desse saber misterioso colhido pelos anos de observação, pelas vezes que encarou os viajantes e calculou quantos deles julgavam ser aquele um lugar de miséria, esquecido por Deus. Ela coloria a sua casa, seja por esse ou outro motivo, e de repente tudo para mim adquiria novo aspecto e eu deixava momentaneamente de querer ser como aqueles viajantes.

Algumas comadres que passavam pela calçada se detinham às vezes para conversar, contando casos recentes, sempre interrompidos por suas exclamações de um "graças a Deus". E Deus voltava a contribuir para o equilíbrio do dia. Os solitários fechavam suas janelas cedo, seguidos pelos pais de família. Minha avó também fazia a casa toda dormir para quem a via do exterior. Dentro, um ritmo quente e compassado por seus chinelos de dedo me dizia que daqui a pouco o cheiro da sua comida voltaria a povoar as minhas narinas, de modo a impregnar não só aquele momento fugidio como toda a minha vida. Volta e meia algum bicho se infiltrava pela janela e meu pânico a fazia rir gostosamente. Com naturalidade, ela convivia com as lagartixas detrás da estante da televisão, com as pererecas que visitavam o banheiro e com os calangos do quintal. A contragosto matava um para me acalmar. Nada disso espantava a minha vontade de ficar ali. Eu ficaria ali para sempre, mesmo que eu não soubesse disso naquela altura.

Deitar para dormir nunca era definitivo, pois a claridade dos postes, o barulho dos caminhões e os alívios urinários da madrugada faziam viva a casa de minha avó, mesmo no silêncio, mesmo na hora mais extrema da madrugada. Foi a primeira ideia cortante que me invadiu quando soube que não a veria mais. Pensei na inevitabilidade de tudo que é humano e na também inadiável morte da casa de minha avó, que ficaria de luzes apagadas, sem fogo que a aquecesse, sem água que a refrescasse, sem plantas que a alegrasse, sem vassoura que a varresse e sem as chinelas de dedo que a acariciasse.  


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

U me dobry.


"Um trem deve ir devagar
para que as borboletas possam
entrar e sair pelas janelas."


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sopro.

Acordei subitamente inundada de saudade.
Por pouco, quase mesmo, não respirei seu cheiro.
Não foi como uma névoa. Você esteve aqui. Eu sei que sim.
Porque lágrimas densas caíram dos meus olhos ainda cerrados.
Sempre na luta de prolongar o instante da sua presença,
De não querer te deixar partir.
De não entender porque sempre existe a hora de partir.

É preciso dizer: - acho que nunca vai passar.

Mais forte do que qualquer fotografia, que um dia descolore...
São as lembranças, todas elas gravadas, machucadas, impressas
É quando eu volto a perceber seu olhar de afeto, aprovando minha existência.
O amor enorme que me fortalecia. Sem tamanho e eterno.
A tristeza de ter te decepcionado, de não ter segurado sua mão, antes de ir embora...

Vigia, me guarda, acaricia meu rosto.
Mesmo que eu não te veja, mesmo que eu pareça distraída.
Porque um dia eu acordo, eu volto a respirar e esqueço que te perdi.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Viçosa, 19 de agosto de 2012.


Porque tudo é feito de amor
que eu volto a sentar na mesma escada.
a olhar para a mesma paisagem, a sentir
outros medos, a lembrar dos medos antigos.

Porque tudo é feito de amor
que a música revela nostalgias, que
as palavras duram até as 3, que o
sabor das coisas se apuram com a idade.

Porque tudo é feito de amor
que eu não tenho receio de voltar, de
olhar pra trás, de acrescentar saudades
à minha existência.

Mas porque tudo é feito de amor
que eu não ando em linha reta, nem
tampouco em marcha-ré, que eu me
permito seguir adiante, tortuosamente,
na expectativa de boas surpresas, de
pouca pressa, de outros amigos, de amigos antigos.

E se tudo é feito de amor
e se nunca deixarão de haver crianças e cachorros
é que eu reparo na claridade dos seus olhos
no jeito como respira, na força da sua solidão.
Porque quando da vida só sobrarem retratos,
quero ter certeza de que foi por amor...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A gente da praça

A gente da praça com seus olhos úmidos e desavisados
Grita ardentemente perdão pelos erros que não cometeu
Tão profundamente sãos e insanos, de mãos nervosas e pele sem luz.

A voz rouca, ofegante, sem pressa, acostumada ao ouvido do vento
Nada está a sua espera, túnel, vazio, firmamento...
E na praça, mais do que todos os passantes, sente os caprichos do tempo,

A chegada de uma primavera que dura menos, bem menos do que as noites de frio,
E o susto das tempestades.

Em trapos, se aquece como prisioneiro de um cárcere sem muros
Pelos cantos de uma parede de mármore, pelos vãos de uma loja de luxo,
Pelas quinas de um bistrot sofisticado, cheirando a comida que só pode saborear
Em restos, réstias de quem não sabe que é humano...

A gente da praça não morre de fome, não morre de frio, não morre doente.
A gente da praça morre de esquecimento...